quarta-feira, novembro 2

211. Hispanica


[…] chamarás aos fillos
que aló do Miño están,
os bos fillos do Luso,
apartados irmáns
de nós por un destino
envexoso e fatal
Cos robustos acentos,
grandes, os chamarás
¡verbo do gran Camoens,
fala de Breogán!

(A fala, Eduardo Pondal)

Na Universidade de São Paulo, há a área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Latino-Americanas, porém, poucos talvez saibam que na Espanha se falem outras línguas (como há já um tempo venho frisando insistentemente), e que essas não tenham sequer um único espaço dentro do meio acadêmico. Estranho, visto que há o bacharelado em Árabe, em Armênio e Chinês; absolutamente nada contra essas línguas e culturas, mas acho inadmissível que não haja sequer uma disciplina optativa permanente sobre o Catalão, o Galego e o Basco, línguas e culturas muito mais próximas de nós. Basta frisar que o começo da nossa língua e literatura é comum com a Galiza, lembremo-nos que o Trovadorismo é galaico-português. Por questões políticas, agora estamos separados da Galiza. Tanto, que acredito que uma disciplina do Galego não precisasse necessariamente estar vinculada à área de Língua Espanhola, mas sim à de Língua Portuguesa.
O complicado do galego é o longo hiato que há na Literatura; depois do período trovadoresco, com a progressiva castelhanização, a língua galega foi relegada às campanhas e mesmo as gentes campesinas começaram a assimilar o castelhano, símbolo de prestígio social. Somente no século XIX, com o Rexurdimento, a Renascença Galega, nomes como Eduardo Pondal e Rosalía de Castro trouxeram novamente à vitalidade uma língua quase renegada, como se fosse um falar boçais e de ignorantes. Desde então, sucessivas gerações de poetas e prosadores galegos dão vitalidade e energia ao idioma.
É uma área, pelo que posso sentir, muito pouco explorada dentro dos meandros acadêmicos e mesmo ao grande público não se faz conhecer; praticamente nenhuma publicação do gênero foi editada, exceção à excelente Antologia de Poesia Galega, organizada por Yara Frateschi Vieira, editada pela Editora da Unicamp em 1996; que é pouco mais já dá uma idéia do que é a poesia galega.
Parece-me que existe o termo hispanista para o especialista em língua espanhola e literaturas de língua espanhola, porém, um conceito que é já presente na própria Espanha, de cunho até oficial, é o de línguas espanholas (o castelhano, o vasco, o catalão-valenciano e o galego-português) e não mais chamar o castelhano de língua espanhola, ventos que por aqui e na própria América castelhanófona demorarão a chegar. Aceito, para tal estudioso, a referência de castelhanista, e se alguém tem pretensões a hispanista, há-de ter contacto também com as outras línguas e literaturas da península Ibérica.

O assunto não pára por aqui, mas retenho-me e abro espaço às discussões. Lembrando aïnda do campo ibérico, o companheiro Miquel, do Eines de Llengua publicou parte das comunicações que tivemos nas postagens Luz brasileira e névoa sobre as Cortes e A demagogia habitual sem papas na língua.

7 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Saudações, meu caro Conde

Sim, aqui está alguém de pleno acordo contigo. É uma "vergonha" não termos essas outras línguas "disponíveis"... Tenho tido alguns ataques de raiva nas minhas aulas de Lingüística Histórica (com o Xoán, um galego), pois nem um panorama bom tem sido dado a respeito das línguas românicas...

Abraços/ Anahid

quarta-feira, novembro 02, 2005 7:47:00 da tarde  
Blogger Sérgio disse...

Veja, né, Fátima, que desprezo pelas coisas de Ibéria.

Pois é, caro Tartufo, a Espanha há já uns bons três decênios não é mais governada por Franco e a ditatura hostiocrata também amainou-se a grande prova é que, recentemente, lendo um editorial do Peiódico de Catalunya, uma editora acusa a Mare Esglèsia Catòlica Espanyola, por uma rádio e pelo Partido Popular (do Aznar) de estarem trabalhando contra a tramitação do projeto do Novo estatuto de autonomia nas Cortes de Madri, o que inclusive, começou ontem.

quinta-feira, novembro 03, 2005 5:35:00 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

- já li coisas em galego muito boas, muito boas mesmo. Rosalía de Castro é divina; nela, encontramos um uso pertinente e cuidadoso da sintaxe e da sonoridade, aliadas à um sabor docemente ibérico. Penso em reaproximar-me dessas raízes. Tenho estado muito francesinho.
- falou em comungar, já tô correndo;
- sim, meu caro, tudo a ver connosco...

quinta-feira, novembro 03, 2005 9:19:00 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Sérgio, não me leve a mal, mas há um bom tempo já que seu blogue se tem mostrado algo monotônico, sempre a falar da Catalunha e de estatutos de co-habitação de línguas num mesmo país. Embora esse tema lhe pareça interessantíssimo, não é o único assunto que existe no mundo. É preciso diversificar.

sexta-feira, novembro 04, 2005 12:07:00 da tarde  
Blogger Sérgio disse...

Jeff,
Eu gosto bastante da Rosalía também. Mas prefiro o Pondal.

Donato,
Bem, Donato, garanto (não me leve a mal) se eu tratasse com, a mesma ênfase sobre o italiano e a Itália ou o francês e a França, ninguém objectaria um único a. Agora, como se trata de uma língua que não é clássica das língua dos Estados-Nacionais, há sempre um véu de exotismo. Muitos fazem inglês ou alemão e ignora-se a própria România, as nossas línguas e culturas-irmãs, porque talvez essas não tenham tanta visibilidade no cenário cultural internacional.
Sei que as suas intenções não são as piores, mas alguém tem de falar; se nós, que nos propomos a estudar Línguas e Culturas não nos levantemos, tudo que não cheire a inglês será considerado exótico; inclusive com o português. Há algum tempo, conheci uma moça japonesa que estava de intercâmbio lá na Faculdade e conversando, quase por acidente, ela me disse que na sua universidade, o português estava no Departamento de Línguas Exóticas (!), junto com o Árabe e alguma outra coisa. Ou seja, ninguém quer ficar por baixo e para isso é necessário ter conhecimento e não fazer caretas ou gracejos quando se fala do catalão, ou lembrar da Igreja Espanhola, de Franco. Já lhe disse, a Espanha mudou e mudou muito nos últimos trinta anos. Foi pro gracejos e preferências lingüísticas que o galego quase sumiu e perdeu sua fonética original. Recomendo uma leitura mais acurada.

Saudações.

sexta-feira, novembro 04, 2005 1:06:00 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Veja bem : o problema não está na escolha das línguas e nacionalidades de que você vem tratando, mas na insistência e repetição dos temas. E justamente por tratar-se de matéria "exótica", melhor seria não abusar dela, sob o risco de cair no kitsch. Enfim, você deve fazer o que bem entender do seu blogue; apenas lamento que sua veia cômica - o que me parecia o forte deste periódico - se tenha estreitado um tantinho nos últimos tempos.
Ainda quero vê-lo como grande hispanista - um dos maiores - e rindo-se das virtudes cristãs da Rainha Isabel.

sábado, novembro 05, 2005 12:59:00 da manhã  
Blogger Sérgio disse...

Certo, Donato; eu compreendi. Bem, a postagem de cima parece-me mais de acordo, ou não... crônica citadina e lingüística, eh?

sábado, novembro 05, 2005 7:47:00 da tarde  

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